O rejeito do dessalinizador carrega os sais retirados da água e precisa de destino licenciado antes da compra.

Quem pensa em instalar um equipamento para transformar água salgada em água boa costuma olhar para o que sai limpo e esquecer do que sobra. Todo dessalinizador por osmose reversa devolve duas correntes: o permeado, que vai para o consumo, e o concentrado, onde ficam os sais retidos. O rejeito do dessalinizador é, na prática, o ponto que mais surpreende quem compra sem planejar.

Este texto explica por que existe o rejeito, quanto dele sai, o que há dentro, quais destinos são usados e licenciados e como reduzir o volume. É um guia para quem tem poço salobro em hotel, condomínio, fazenda ou indústria e quer entender a conta completa antes de decidir.

O conteúdo é informativo e não substitui o projeto de um responsável técnico nem a licença do órgão ambiental.

Por que o dessalinizador gera rejeito

A osmose reversa funciona como uma peneira que deixa passar a água e retém os sais. A bomba de alta pressão empurra a água contra a membrana, e o líquido que atravessa sai como permeado. Os sais ficam do outro lado e saem no concentrado, que continua escoando pelo sistema para não entupir a membrana.

Esse fluxo é necessário. Se o concentrado parasse, os sais se acumulariam e incrustariam a superfície. A taxa de recuperação, que mede a fração da água captada que vira produto, define a proporção entre as duas correntes. Em água salobra de poço, ela fica entre 50% e 75%, e em água do mar, entre 40% e 50%.

Quanto rejeito sai e quão concentrado ele é

A conta é simples: Com recuperação de 50%, metade da água captada vira rejeito, e esse rejeito sai com cerca do dobro da concentração de sais da captação. Com 75%, o rejeito é um quarto do volume, mas cerca de quatro vezes mais concentrado. Mais recuperação poupa água e gera menos rejeito, porém com sais mais concentrados, e eleva o risco de incrustação.

Um poço salobro com 3.000 mg/L de sólidos dissolvidos, operando com 75% de recuperação, produz rejeito de aproximadamente 12 mil mg/L, e a água do mar, que parte de 35 mil mg/L, gera rejeito de dobro ou mais. O equipamento deve ser dimensionado para suportar essa concentração, e o destino deve estar preparado para recebê-la.

O que há dentro do rejeito do dessalinizador

Nada de mistério.

O concentrado traz principalmente os sais da água de entrada, como cloreto de sódio, sulfatos, cálcio e magnésio, em concentração maior. Também carrega os produtos usados no processo, como o antiincrustante dosado na entrada, e, depois das limpezas químicas, o efluente de limpeza, que é separado e neutralizado.

Não há contaminantes novos criados pelo processo, mas a concentração elevada de sais pode prejudicar solo, vegetação e corpos hídricos de água doce. Por isso, o lançamento sem critério é tratado como poluição.

Destinos possíveis para o concentrado

As alternativas dependem do local. Nas regiões costeiras, o lançamento no oceano por emissário licenciado, com difusores que dispersam a salmoura, é uma opção, desde que a autoridade ambiental aprove o ponto e o monitoramento. No interior, os tanques de evaporação, que usam sol e vento para secar o rejeito, são comuns, e o sal resultante precisa de destino.

A infiltração no solo é restrita e só deve ser feita com estudo, porque pode salinizar o terreno e contaminar o aquífero. Há ainda o aproveitamento em sistemas produtivos, como o desenvolvido no Programa Água Doce, do governo federal, que utiliza o concentrado em tanques para criação de tilápia e na irrigação de plantas tolerantes ao sal, como a erva-sal.

O que a licença costuma pedir

O lançamento de rejeito segue a licença do órgão ambiental estadual ou municipal, e a regra geral de lançamento de efluentes é a Resolução Conama 430, de 2011. O concentrado, por ser salino, pode exigir estudos específicos e monitoramento da condutividade e dos sólidos no ponto de descarga e no corpo receptor.

A captação de poço exige outorga, e a água produzida para terceiros responde à Portaria GM/MS nº 888, de 2021, que limita cloreto a 250 mg/L e sólidos dissolvidos a 500 mg/L. Planejar o rejeito desde o início evita embargo e retrabalho.

Como reduzir o volume de rejeito

Alguns caminhos ajudam. Aumentar a recuperação, com pré-tratamento adequado e antiincrustante bem dosado, reduz o volume. Usar membranas de baixa pressão em água salobra economiza energia. Estágios em série, que tratam novamente o concentrado, elevam a produção. O reúso em usos que toleram sal, como lavagem de pisos, compensa parte do volume.

Em todos os casos, o limite é a incrustação: quanto mais concentrado o rejeito, maior o risco de precipitação de sais sobre a membrana. O projeto deve considerar a química da água, e não apenas o desejo de recuperar mais.

Tanque de evaporação: como funciona e o que exige

Em regiões com sol forte e baixa umidade, o tanque de evaporação é uma das alternativas mais simples. O rejeito é conduzido a bacias rasas, revestidas com manta impermeável para evitar infiltração, e a água evapora, deixando o sal. A área necessária depende do volume diário de rejeito, da taxa de evaporação local e da chuva.

Esse sistema exige cercamento, controle de transbordamento e retirada periódica do sal, que precisa de destino, por vezes em aterro licenciado. Em climas úmidos, a evaporação é lenta e o tanque exige áreas grandes, o que limita o uso.

Lançamento no mar: difusores e monitoramento

Em instalações costeiras, o lançamento do concentrado no mar por meio de um emissário com difusores dilui a salmoura rapidamente. O projeto considera a profundidade, as correntes, a sensibilidade da fauna e a distância de áreas de recreação. O órgão ambiental pode exigir monitoramento da salinidade, da temperatura e de organismos no entorno do ponto.

Mesmo com a água do mar como receptor, o lançamento de um volume pequeno diretamente na praia ou em canal de drenagem pode causar problemas locais. Por isso, o licenciamento avalia o ponto exato e as condições do corpo receptor.

Perguntas a fazer antes de comprar o equipamento

Antes de assinar, vale perguntar ao fornecedor quanto rejeito sairá por dia, qual a concentração prevista, que destinos são viáveis no local e quais licenças serão necessárias. Também importa saber se o projeto considera ampliação futura, porque aumentar a produção significa aumentar o rejeito.

Para o gestor, a conversa com o órgão ambiental no começo do projeto poupa meses. Levar o laudo da água, o desenho do sistema e a proposta de destino já permite ao órgão indicar as exigências e os prazos.

Vale ainda registrar a produção de permeado e a de rejeito em planilha, mês a mês. Quando a proporção muda, pode haver problema na membrana ou no pré-tratamento, e a correção precoce evita parada e custo de substituição.

Um resumo para guardar

O rejeito do dessalinizador carrega os sais retirados da água e sai com concentração maior do que a entrada, em volume de 25% a 50% da água captada. Seu destino, seja emissário, tanque de evaporação ou uso produtivo, precisa de licença.

Incluir o rejeito na análise de viabilidade, desde o laudo do poço, evita o erro de comprar o equipamento e não ter onde descartar o concentrado.


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